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Companheiros do Brasil no Bric, grupo
que reúne as maiores economias emergentes, Rússia, Índia
e China têm as atenções mundiais voltadas ao desempenho
de suas economias nesse período de crise financeira global. A
análise da situação desses três países
por economistas locais foi um dos pontos altos do simpósio internacional
Perspectivas para o Desenvolvimento no Século 21,
organizado pelo Centro Internacional Celso Furtado e realizado nos dias
6 e 7 de novembro no Rio de Janeiro.
Professor da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade
de Londres, o chinês Dic Lo afirmou que a atual crise servirá
para que seu país resolva o paradoxo constituído pelas
graduais transformações econômicas iniciadas há
três décadas sob o comando da direção do
Partido Comunista Chinês: Existe uma pressão para
a China aderir ao Consenso de Washington, como se esse fosse um caminho
natural para o seu crescimento econômico. Por outro lado, a corrente
anti-globalização defende as reformas capitalistas, mas
não admite que a China assuma uma política neoliberal,
no que se refere à desigualdade social e a má distribuição
de renda, disse.
Lo propõe uma alternativa, que é trabalhar com o
mercado, mas adotar políticas sociais para corrigir os excessos.
O governo chinês, segundo o economista, demonstra ter essa percepção:
Houve preocupação em aliar o crescimento econômico
com políticas de proteção ao trabalho e um forte
processo de sindicalização, disse. Frente à
crise atual, Lo acredita que a China vá se portar como na crise
asiática, iniciada em 1999: Na ocasião, o governo
chinês aumentou seus gastos com investimentos e optou pela expansão
do PIB.
Um fator específico que, segundo Lo, dá segurança
à China em momentos de crise financeira é o fortalecimento
de sua economia doméstica: A distribuição
igualitária da renda foi fundamental para alavancar o consumo
de massas e fortalecer a economia doméstica nesses anos de crescimento
acelerado. Houve uma revolução de consumo da população
chinesa como um todo, disse.
O recente e fantástico crescimento da China, na explicação
do economista, conhece duas etapas. Na primeira, que durou do fim dos
anos oitenta até 1995, o governo investiu maciçamente
no crescimento da indústria pesada, o que provocou a transformação
da mão-de-obra agrícola em mão-de-obra industrial
e ocasionou uma grande migração da população
rural para as cidades.
A segunda fase, que dura até hoje, marca a gradual abertura da
China para o capital externo e o mercado financeiro: A liberalização,
acentuada a partir de 2000, já trouxe conseqüências
macroeconômicas sérias, como a demissão de 65 milhões
de trabalhadores das empresas estatais ou coletivas, afirma Lo.
A atual crise, espera o economista, servirá para enfraquecer
o setor da elite política chinesa que defende uma maior adesão
ao Consenso de Washington: A crise mostrou a todos que o aumento
das atividades ligadas à especulação não
pode continuar.
China sobe, Rússia desce
Ao contrário de um governo comunista que se abre gradualmente
ao capitalismo, o caso da Rússia é exemplo de uma abertura
radical realizada em poucos anos, fato que faz com que a situação
atual do país seja bem diferente da situação chinesa.
Essa demonstração foi feita pelo economista russo Vladimir
Popov, que é professor da Nova Escola Econômica de Moscou:
China e Vietnã fizeram reformas que não trouxeram
redução da economia. Na Rússia, e nos países
do Leste Europeu, ocorreu o oposto, disse.
Segundo Popov, até hoje o PIB russo se encontra abaixo dos níveis
registrados em 1989, ano da queda do regime comunista. O estresse social
causado pelo desmantelamento do estado soviético e a apropriação
do aparato bélico e industrial russo por uma nova elite dirigente,
segundo o economista, está na origem da crise que só permitiu
à Rússia voltar a crescer continuamente a partir de 1998.
O problema da desigualdade, no entanto, ainda é o mais grave
do país na opinião de Popov: Segundo a revista Forbes,
existem 500 bilionários na Rússia. Na Alemanha foram identificados
50, disse.
Popov afirmou que o sucesso chinês se deve à herança
maoísta, que concentrou nas mãos do Estado o sistema bancário,
a posse das terras e o acúmulo de reservas: Por isso, ao
contrário da Rússia, a liberalização econômica
teve efeito positivo quando chegou à China, disse. O economista
russo afirmou que o atual sucesso da economia chinesa pode servir de
inspiração na busca de soluções para a economia
global: O importante do crescimento chinês é que,
pela primeira vez, de verdade, um país conseguiu vencer o atraso
econômico sem adotar o modelo ortodoxo neoliberal.
A pobre Índia rica
Colônia britânica até 1950 e país democrático
e capitalista desde então, a Índia é um caso a
parte, como demonstrou o economista indiano Rayaprolu Nagaraj, que é
professor do Instituto Indira Gandhi de Pesquisa sobre o Desenvolvimento.
O país ocupa atualmente o 12º lugar no ranking das maiores
economias do mundo, mas ainda enfrenta o desafio de promover a distribuição
de renda e combater a extrema pobreza que assola parte de sua enorme
população, sobretudo os 56% que vivem no meio rural.
A atual posição de força da economia indiana, segundo
Nagaraj, se explica pelo fortalecimento do mercado doméstico:
Durante décadas, o crescimento econômico do país
não dependeu de poupança externa ou de fluxos financeiros
privados internacionais, disse. Em um primeiro período,
que durou até a década de 1980, a Índia cresceu
e conseguiu reduzir a pobreza absoluta. A partir da década seguinte,
com o aceleramento das reformas e a adesão ao Consenso de Washington,
a coisa se modificou: As reformas fizeram a Índia crescer
ainda mais, mas tiveram impacto negativo na redução da
pobreza, disse o economista.
Nagaraj aponta como grandes desafios para a Índia aprofundar
a democracia e diminuir a desigualdade social. Algumas medidas já
vem sendo tomadas pelo governo indiano, como a adoção
de políticas de inclusão positiva e do sistema de cotas
nos postos de trabalho e no ensino superior para os membros das castas
mais baixas, como os dalits (intocáveis), que representam 15%
da população. A crise atual, segundo Nagaraj, também
pode servir como momento de reflexão para o governo indiano:
A Índia está numa encruzilhada: ou segue a ortodoxia
de Washington ou aprofunda as políticas de investimento interno
e combate à pobreza e à desigualdade social.
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